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25/01/2005 13:43
"desvirgular"
pedem em uníssono que ele aguarde.
falta o pai.
não demora e ele aparece penteado nos seus sapatos gastos.
perfilam-se.
flash!
passou-se um bom tempo.
quantos mesmo?
não sabe.
seriam felizes?
idem.
toma da bengala para guardar aquelas lembranças amaduradas.
desce e percorre o caminho até a despensa.
num jogo ininterrupto de claros e escuros chega até seu destino.
abre o fecho e enterra tudo no seu devido lugar.
volta para a sala de estar e liga aquele troço comprado à prestação.
desafiando o tique-taque pendular é iniciado o zumbido.
acessa a sala sob a alcunha de menina ardente procura.
sem demora escorre pela tela aquele repertório mais que conhecido.
inflama alguns.
outros despreza.
dá corda até certa hora e sai.
sem despedidas.
impaciência.
tira tudo da tomada.
toca o telefone.
sabe que é a neta.
não atende.
lembra dos remédios.
na cozinha pega as cápsulas e engole de uma só vez.
água da torneira.
já no quarto percebe vozes.
procura avidamente seu olho mágico auricular.
recosta o copo com a borda ainda molhada no lugar de sempre.
tenta decifrar a discussão.
fica ali um bom tempo até sentir as batidas da cabeceira na sua parede.
deita-se colocando os dentes sobre o criado-mudo.
embalada por aquele batuque sincronizado fecha os olhos.
dorme esboçando um sorriso banguela de satisfação.
noutro dia é a primeira a chegar.
o robusto portão ainda está fechado.
preguiçoso!
bate com a ponta da bengala até abrirem.
sem cumprimentos é iniciado o expediente.
toma seu lugar.
confessa tudo.
principalmente o que não houve.
o de sempre: um pai-nosso e outra ave-maria.
custa a dobrar os joelhos.
doem-lhe as juntas.
todas elas.
meia-hora e consegue levantar.
volta para casa ofegante.
está quase na hora...
ricardo neves, setembro de 2002
enviada por ricardo
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